As fotos são da autoria do Vítor Lopes, colaborador do jornal.
19 maio 2010
"A Esquerda regressa a Alpiarça"
Esta entrevista foi feita após as eleições autárquicas de 2009, ao novo presidente da Câmara Municipal Alpiarcense, Mário Pereira, e publicada na edição de Outubro do jornal "Voz de Alpiarça" com o qual colaborei na altura. Infelizmente, com muita pena minha, deixei de ter disponibilidade para continuar. Contudo, espero poder voltar a fazê-lo muito em breve.
As fotos são da autoria do Vítor Lopes, colaborador do jornal.
As fotos são da autoria do Vítor Lopes, colaborador do jornal.
Entrevista a Mário Pereira
“Não podem esperar de nós uma postura de exercício dos cargos vertical e centralizada... O relacionamento próximo com as pessoas é a nossa principal prioridade.”
Aos 40 anos, Mário Pereira, casado e pai de dois filhos, é o novo presidente eleito para a Câmara Municipal da nossa vila de Alpiarça. Licenciado em História e Ciências Sociais pela Universidade do Minho, desde cedo se interessou pelas questões relativas à política tendo aderido ao Partido Comunista Português em 1990. Vereador da Câmara Municipal desde 2005, ano das últimas eleições autárquicas, candidatou-se novamente à presidência este ano e acabou mesmo por vencer, no dia 11 de Outubro, com cerca de 49,7% dos votos, contra aproximadamente 42% para o PS que detinha a Câmara há já 12 anos.
Em entrevista ao Voz de Alpiarça, o novo presidente da Câmara Municipal encara esta vantagem de cerca 7,6% em relação ao PS com naturalidade: “Pelo trabalho que realizámos ao longo dos vários anos em oposição, através dos eleitos da CDU, pela sua intensificação durante o ano de 2009 e particularmente durante a campanha e pelo que considerávamos ser a justeza das nossas propostas e a sua adequação ao necessário desenvolvimento do nosso concelho, tinhamos uma grande convicção de que iriamos ter bons resultados e ganhar nos vários órgãos: Câmara e Assembleia Municipais e Junta de Freguesia.”
Mário Pereira comentou ainda a abstenção de cerca 33,5% dos recenseados de Alpiarça que, na sua opinião, não se trata de um fenómeno local, sendo que existem inúmeros concelhos do país que registaram níveis de abstenção mais elevados. Contudo, explica este fenómeno através de uma certa desmobilização dos cidadãos que assistem ao abandono por parte das forças políticas locais das promessas e propostas feitas em período de campanha eleitoral. Acrescenta ainda: “Algumas situações menos claras, de corrupção, podem fazer com que os cidadãos não compreendam, ou compreendam de forma errada, aquilo que seria o necessário sentido da participação democrática”. Em Alpiarça, particularmente, o presidente conta que não vê nenhuma razão que tenha contribuído para estes números a não ser, de facto, algum descrédito relativo a promessas não cumpridas.
O novo líder autárquico considera que toda a campanha foi marcada pela positiva e pela discussão de ideias, apresentação de propostas e pelo afastamento, pelo menos formal, de questões pessoais. Salienta o civismo e a forma positiva com que todas as forças polítcas encararam este acto eleitoral. Em relação à CDU Mário Pereira não hesita: “Fizemos uma campanha excepcional! Nunca nos últimos 15 ou 20 anos a CDU tinha feito uma campanha tão intensa, com um conjunto tão vasto de iniciativas e realizações, todas elas com imenso sucesso!” Estas iniciativas passaram pela realização de comícios no largo dos Águias em que se mobilizou centenas de munícipes, pela participação de dirigentes nacionais como Ilda Figueiredo, Gerónimo de Sousa ou António Filipe, por iniciativas sectoriais como debates sobre a situação da agricultura, mais concretamente sobre o melão, ou até mesmo por reuniões com o movimento associativo, com os agentes culturais, desportivos, etc. O actual presidente acredita, portanto, numa retrospectiva da campanha, que foi o porta a porta, o contacto directo com as pessoas, incluindo obviamente as populações do Frade de Cima, Frade de Baixo, Casalinho, etc, que se tornou fundamental para a mobilização dos activistas e apoiantes da CDU e para os resultados que acabaram por se verificar posteriormente no dia 11 de Outubro.
Perguntámos ao nosso novo presidente qual seria a primeira medida a ser posta em prática logo após a tomada de posse da Câmara Municipal ao que este respondeu prontamente que não seria uma questão muito fácil principalemente pelo parcial desconhecimento da situação concreta, sobretudo a nível financeiro, em que se encontra a autarquia. De qualquer forma confirmou-nos que existe um conjunto de medidas nas várias áreas, desde a cultura, ao desporto, passando obviamente pelo desenvolvimento económico, entre outras, previstas no programa eleitoral e que são, por isso, para cumprir. Este mandato será pautado pelo entendimento e apelo ao bom relacionamento entre as pessoas que o anterior executivo deixou deteriorar como refere este autarca: “Existe neste momento uma crispação entre as forças políticas e entre as pessoas e mudar isso é a nossa principal prioridade”.
Embora a campanha eleitoral da CDU não se tenha baseado, segundo Mário Pereira, no levantamento exaustivo de erros, foram abordadas várias questões consideradas de resolução imediata obrigatória. Nomeadamente ao nível das questões ambientais – tomemos por exemplos a poluição da Vala de Alpiarça ou o mau funcionamento da ETAR – que são problemas que, no entender do novo executivo, urge resolver, foram já apontadas algumas possíveis soluções. Primeiramente será necessária a intervenção da autarquia no sentido de efectuar uma vigilância e fiscalização rigorosas das entidades poluidoras. Contudo, esta fiscalização terá que contar com a intervenção e contributo das entidades competentes na matéria, neste caso a Administração da Região Hidrográfica do Tejo (ARH Tejo) e a empresa intermunicipal Águas do Ribatejo, que terão que, juntamento com a Câmara e as autarquias vizinhas, colaborar de forma a resolver este problema. “Sabemos que parte do problema tem origem na Zona Industrial e nos efluentes que são deitados directamente no colector de esgotos e no emissário que vai para a Vala de Alpiarça. Consideramos importante a construção de uma nova ETAR na Zona Industrial, bem como continuar a intervenção e os trabalhos de limpeza que já foram iniciados e evitar que esta situação se volte a repetir” – acrescenta.
Há que ter presente que a autarquia tem um endividamento actual de cerca de 12 milhões de euros o que, para uma autarquia destas dimensões, o novo presidente considera um montante demasiado elevado. Ainda assim admite: “Claro que parte dessa dívida resulta de investimentos que foram feitos e dos quais usufruimos e continuaremos a usufruir. O montante do endividamento não resulta na totalidade de más opções, mas há algum que resulta.”
Preocupa-nos então saber de que forma pode esse endividamento tornar-se uma limitação à realização efectiva das promessas eleitorais. Mário Pereira não esconde a preocupação e chega mesmo a dizer que esta situação se prolongará por anos e que afectará as gerações futuras embora não saiba ainda as suas verdadeiras implicções: “Esta é uma realidade que só depois, no terreno, poderemos ver o quão limitativa ou não é da acção em termos futuros”. Contudo, avança a hipótese de fazer uma auditoria às contas da Câmara que defina exactamente o que significa este endividamento e qual é a situação financeira real.
Pretende assim obter algumas pistas em termos de gestão futura que terá que ser, segundo este, rigorosa, criteriosa e que mobilize as disponibilidades financeiras para a execução das propostas, para projectos muito específicos, sem megalomanias e sem iludir as pessoas com propostas que não são exequíveis. O nosso autarca reforça a ideia de uma política de proximidade, que satisfaça as imediatas aspirações ao bem estar e usufruto dos bens colectivos dos municipes, assim como ter sido, de resto, a linha de orientação sugerida pelo presidente da República, Cavaco Silva, até porque, segundo Mário Pereira, não há neste momento capacidade nem interesse deste novo Quadro de Referência Etratégica Nacional em se concentrar em grandes infraestruturas.
Assim, o novo presidente da Câmara Municipal considera que as medidas mais urgentes a serem tomadas são relativas à sociedade, à educação, à prática desportiva, ao usufruto dos bens culturais e históricos. Mário Pereira diz: “Os cidadãos e o nosso património ambiental, cultural, histórico e até mesmo urbano, merecem uma atenção especial. Temos duas linhas de orientação importantes: valorizar as pessoas e valorizar o património!”
Uma das questões que mais pode preocupar os cidadãos alpiarcenses é o facto da CDU, sendo um partido de esquerda, ser conhecido, em Alpiarça, por fazer uma política centrada apenas na própria vila, que não permite a entrada de investimentos de outras terras, entre outras questões que poderiam limitar o seu desenvolvimento e uma maior projecção a nível nacional. Neste aspecto o presidente mostrou-se em total desacordo: “Temos autarquias comunistas no nosso país que têm conseguido projectar-se nacionalmente. A CDU está em maioria em concelhos como o Barreiro, Seixal, Almada, Setúbal, e num conjunto de autarquias que conseguem impor a sua imagem ao nível do país”. Reforça ainda que a lista de candidatura apresentada contava com vários militantes do Partido Comunista mas também com um largo conjunto de independentes.
O segredo, para Mário Pereira, está em saber potenciar eventuais imagens fortes de Alpiarça, imagens de marca. O melão surge então como uma das mais-valias para a nossa vila e até já foi proposta a criação de um Festival do melão, bem como outras medidas de certificação e promoção do sector junto dos grandes centros. A Casa-Museu dos Patudos é, segundo este, outro património importantíssimo a ser valorizado, bem como outras componentes museológicas, arqueológicas, como é o caso da barragem, e até históricas, de luta contra o fascismo, que tem sido gradualmente esquecida principalmente pelas camadas mais jovens. O vinho é outro elemento fundamental que surge associado à nossa vila e que tem vindo a perder essa ligação, sendo necessário revivá-la. Em termos desportivos, destaca ainda o ciclismo, não apenas por si só mas também como componente de outras práticas desportivas, nomeadamente o triatlo. Estas são apenas algumas das formas que o novo presidente do município aponta para promover a imagem do município e valorizar as nossas potencialidades turísticas.
Um dos problemas com que Alpiarça se debate há bastante tempo é o progressivo envelhecimento da população e a saída dos jovens que não encontram aqui as oportunidades de emprego e a realização pessoal que ambicionam, por outro lado, é obvio o desinteresse generalizado dos jovens relativamente à intervenção política. O presidente da Câmara afirma que este fenómeno não é, contudo, totalmente inocente: “Por vezes os poderes vêem na participação empenhada dos jovens uma possibilidade de afronta ao poder instituido”. Para ele, os jovens de hoje devem ser naturalmente interventivos pois serão os governantes de amanhã e essa participação é fundamental não só ao funcionamento dos partidos em particular mas também ao sistema democrático no geral. Para tal, e de forma a cativar uma maior atenção das faixas etárias mais baixas para os assuntos da política, Mário Pereira apresenta algumas sugestões como a Semana da Juventude, o Concelho Municipal da Juventude, que será reactivado, ou mesmo a organização de encontros que consigam juntar o lado lúdico, de convívio, música ou cultura, com a discussão dos assuntos da política local e que mais digam respeito aos jovens: “Através destas iniciativas pretendemos auscultar as sensibilidades, vontades e ideias dos jovens, até porque um dos objectivos que estará sempre presente na gestao de um município como o nosso é a manutenção e a fixação de jovens no concelho”.
No fundo este mandato será definido e continuará a insistir numa ideia de participação popular não colocando entraves à intervenção de todos: “As pessoas não podem esperar de nós uma postura de exercício dos cargos vertical, centralizada, como pensamos ter acontecido nos últimos tempos. Pensámos até criar grupos de trabalho com municipes de várias áreas políticas que auxiliem o poder local”. Também os funcionários da autarquia desempenharão, aqui, um papel fundamental. Para o nosso presidente, sem uma boa relação com os funcionários, sem se discutir com eles as suas ideias e propostas e sem o seu empenho e responsabilização, este mandato estaria condenado ao fracasso.
Mário Pereira pretende ainda, de forma a fomentar o espírito participativo em todos os cidadãos, rever o ponto do regimento da Assembleia Municipal em que está regulada a participação dos munícipes e que, durante este anterior mandato, foi alterado numa tentativa clara de limitar a participação popular apenas aos assuntos da ordem do dia: “O que pretendemos é voltar ao anterior sistema em que os cidadãos podem intervir com as perguntas que entenderem sobre os assuntos que entenderem e, ainda, alterar o período de intervenção do público, que se realiza no final da sessão e que muitas vezes se prolonga até de madrugada, para o início da mesma.” Com estas medidas e com a realização de várias reuniões descentralizadas, em todas as freguesias do concelho, sempre que necessário, o novo executivo tentará apelar ao espírito interventivo e estimular o interesse pela participação política empenhada e consciente de todos.
Este será, portanto, um mandato pautado por uma ideologia de transformação social, de proximidade e de cooperação entre cidadãos e orgãos autárquicos, sem megalomanias, centrado em promover os pontos fortes da nossa vila, o nosso património, aproveitando os recursos que já temos e criando as melhores condições de usufruto dos bens que são de todos; um executivo preocupado em apoiar o movimento associativo, que pretende dar voz às reivindicações popualares – é o que promete o nosso recém eleito presidente da Câmara Municipal para os próximos quatro anos de mandato.
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E TB é com pena minha que não tenhas tempo, mas agora tb eu não sou mais colaborador.
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