Este blogue não pretende ser um meio de divulgação de nenhuma espécie de informação, sendo apenas um espaço onde publicarei, a título pessoal e absolutamente amador, alguns projectos da faculdade.


Frequento o 3º ano de Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa e este blogue servirá como uma forma simples e acessível de partilhar algumas dos trabalhos que vou realizando ao longo do curso e também outros projectos com os quais for colaborando.


Nem todo o material será meu, pelo que estará sempre devidamente identificado o seu autor ou fonte.

Não se sintam inibidos de fazer qualquer tipo de crítica, comentário ou desafio!

__________________________________________________________________________________________

19 maio 2010

"Feiras em Vias de Extinção"

Trabalho feito no 1º ano para a cadeira de Laboratório de Géneros Jornalísticos. 
Foi a primeira reportagem "in loco" que tivemos que fazer. Claramente principiante, agora que a revejo.

Feira em vias de extinção

O primeiro domingo de cada mês é dia de feira em Almeirim. Nesta cidade, situada no distrito de Santarém, tem lugar um mercado de rua onde se vende de tudo um pouco, para todos os gostos e carteiras. Esta feira é já um tradição com aproximadamente 30 anos que mantém um tipo de comércio artesanal, típico das zonas rurais.

São 6 horas da manhã eabrem-se os portões que dão acesso ao largo da feira. Dezenas de feirantes montam as suas tendas, retiram das carrinhas as caixas com o material de venda, expõem os seus artigos nas bancadas e preparam-se para mais um longo dia de trabalho. Pelas ruas, de terra e de pedras, lá se vão organizando os feirantes, que têm o seu lugar já definido no terreno. Os corredores são enormes, cheios das mais diversas cores, apinhados de caixotes e sacos, cheios de tudo o que se possa querer vender ou comprar. Velhos e crianças ajudam os adultos na arrumação das bancas pois aqui toda a família ajuda e ninguém é deixado para trás.

Os produtos variam entre as mais diversas espécies de plantas, utensílios agrícolas, malas, sapatos, roupa, muita dela contrafeita, lingerie, CDs e DVDs, na maioria pirateados, e até comida como doces tradicionais, queijos, enchidos e o famoso bacalhau. A escolha é elevada e os preços reduzidos. As bancas de panos de cozinha a 5 euros a dúzia ou de soutiens a 1 euro a unidade multiplicam-se e a concorrência explode num sem fim de pregões: “Olha a camisa de senhor a 10 euros! Oh, minha senhora, é só escolher!” e há até quem, mais distraidamente ou não, grite: “Aproveitem fregueses, levem 6 e paguem meia dúzia!”. O ambiente é simpático, alegre e com muita vida. As cores, os cheiros, os sons, os pregões, os cantares, tudo cheira a tradicional, tudo remete um pouco, de certa forma, ao tempo dos “nossos avós”.

Este é um ritual que se repete todas as semanas, para Donzília. Tem, juntamente com o seu marido, um negócio de malas. De malinhas de senhora a sacos de desporto, passando por malas de viagem, tem de todos os tipos, para todos os gostos e para todos os preços, dos 10 aos 60 euros. 

Esta senhora de 61 anos, nascida na cidade Santarém, já conhece os cantos à casa. De facto, nunca fez outra actividade na vida: nasceu na feira e aqui continuou. Durante 16 anos ajudou os seus pais no negócio das árvores, plantas, sementes e outros produtos agrícolas: “Os meus pais eram agricultores e ao fim de semana vendiam na feira com a minha ajuda e a dos meus 2 irmãos mais velhos. Éramos 6, ao todo, lá em casa, mas a minha irmã mais nova tem problemas respiratórios e não podia ajudar. Era uma vida dura!”- comenta. 

Mas esta vida dura nunca acabou para Donzília; aos 16 anos resolveu trabalhar por conta própria e iniciar o seu negócio de venda de malas. Alugou o seu próprio terreno na feira, comprou uma carrinha, investiu todo o dinheiro que tinha nas malas que comprou à revenda e juntou as condições necessárias para começar a sua nova vida. Após 45 anos de trabalho por conta própria, esta comerciante percorre todas as feiras que lhe são possíveis na região: Almeirim, Alpiarça, Marinhais, Santarém... Todos os fins-de-semana são dias de trabalho!

No entanto, a feira já não é o que era. Cada vez há menos adesão e o movimento tem decrescido de ano para ano: “Os chineses vêm cá para Portugal, com os preço muito baixos, e roubam-nos os clientes, que assim já não têm que esperar pela feira para comprarem tudo mais barato. Pelo menos no meu ramo, o das malas!”- afirma revoltada. O negócio vai mal e as pessoas que vão à feira vão, na sua maioria, apenas a título de passeio e, mesmo essas, são cada vez menos: “A crise está instalada e as pessoas têm cada vez menos poder de compra, ouvimos isso todos os dias nos jornais.”- dizDonzília, acrescentanto que este ano tem sido mesmo o mais difícil dos últimos tempos.

Em todo o recinto são poucas as crianças, e as que por ali se encontram são principalmente de etnia cigana: umas brincam alegremente pela rua, outras ajudam os pais, outras choram por não ganharem o brinquedo que queriam. São quase todas filhas de feirantes que não têm onde as deixar. E as que vêm com os pais, enquanto clientes, trazem a família consigo o que acaba por se tratar mais de um local de convívio do que de um local de comércio. 

As feiras estão envelhecidas. As crianças são afastadas, pelos pais, deste negócio. Ao contrário do que acontecia antigamente, quando a feira ali começou, os pais incentivam agora os seus filhos a estudar e a esforçarem-se por uma vida melhor. Afinal de contas, o negócio vai mal para todos. 

Donzília bem o pode dizer, já era perto das 12 horas quando vendeu a primeira mala do dia: 45 euros. Esta cliente veiodirectamente de Samora Correia comprar-lha, pois assim tinha ficado combinado no mês anterior. “Pelo andar da carruagem nem vou ter lucro para cobrir o aluguer do terreno”- lamenta a feirante.

O preço dos terrenos varia entre os 50 e os 150 euros mensais, consoante o espaço e a localização, o que significa que, havendo apenas uma feira por mês, esse aluguer é válido por um dia. Muitas vezes o lucro que se tem mal é suficiente para cobrir as despesas e, por isso, o negócio já não compensa. No entanto, Donzília, já com 61 anos, diz ser demasiado tarde para procurar outra actividade. 

Donzília tem agora 2 filhos já adultos e orgulha-se de ter podido dar uma boa educação aos dois: “O meu mais velho, o Henrique, trabalha numa empresa de informática e a minha mais nova, a Lídia, é jornalista na Rádio Pernes. Espero que nunca venham a passar pelas mesmas dificuldades que eu. Fiz de tudo para que isso não acontecesse. Mas nem sempre foi fácil!”- diz, orgulhosa. 

Algumas bancas mais à frente, perdida no meio da azáfama das camisolas a 5 euros e das clientes afoitas, encontra-se Delfina. Com apenas 25 anos é a mais nova de 6 irmãos e gere o seu próprio negócio de roupa na feira há já 5 anos. É jovem mas, tal como Donzília, não tem outras perspectivas de vida: “Nasci aqui, e aqui fui criada... Até gosto disto.”- comenta num tom despreocupado. 

É uma realidade não muito distinta daquela em que vive Donzília. Ambas passaram toda a vida naquelas feiras, vagueando com os pais e irmãos por aquelas ruas povoadas de frangos e galinhas, de patos e perús, com os cheiros intensos do presunto, queijo e bacalhau, com os riscos das inspecções e dos roubos, sempre presentes e até bastante frequentes. E essa é a realidade de ambas, porque sempre assim foi e “não sabem fazer mais nada”. Quando confrontada com a hipótese de estudar, Delfina responde com desinteresse dizendo: “Isso não é para mim, nunca gostei da escola.”. O facto é que Delfina está acomodada, embora o negócio também não lhe corra pelo melhor. 

Há 5 anos que trabalha por conta própria e, tal como Donzília,  considera que este é o pior ano de vendas a que já assistiu. O movimento vai decrescendo e, aos poucos, a feira vai desertificando. São cada vez menos, e cada vez mais idosas, as pessoas que continuam a comercializar neste tipo de mercados. As oprtunidades de estudar são cada vez maiores e quase todos as querem aproveitar. O negócio está a decrescer e é necessário encontrar outras formas de sobreviver. É por isso que o marido de Delfina deixou, já há um ano, o trabalho na feira, deixando-o ao encargo da esposa e da sogra, D. Alzira, que, reformada, vai ajudando para passar o tempo.

A feira vai envelhecendo e medida que os feirantes envelhecem, o mercado envelhece com eles. Das crianças que ali circulam, poucas se manterão por muito tempo, muitas delas andam na escola e ajudam os pais apenas por ser fim-de-semana. Com a crise instalada no país e a concorrência a aumentar, quer por parte das lojas de chineses, quer por parte das grandes superfícies comerciais, o negócio vai ficando cada vez mais difícil. O artesanato é subvalorizado e há cada vez menos quem lhe dê continuidade. Os jovens fogem para as grandes cidades, poucos restam no interior, nas pequenas cidades, como Almeirim. O cheiro a tradição vai-se esbatendo e cada vez são menos as bancas, os feirantes, cada vez é menor o entusiasmo e a alegria tão característica deste tipo de mercados.

Quando confrontadas com a pergunta: “Pensa que a feira é um tipo de comércio em vias de extinção?” ambas Donzília e Delfina respondem que não, que “se há-de manter”. Mas será a curto prazo? Será definitivo? Conseguir-se-há manter a tradição? A que custo? Será necessária a intervenção das Câmaras Municipais? Os actuais transíuntes das feiras são cada vez mais idosos, os que continuam a fazer a rotina que sempre fizeram, a comprar nos mesmos sítios. Mas as novas gerações não ficarão por aqui muito tempo e cada vez mais se manifesta este êxodo em relação às feiras. Com o abandono das localidades rurais vem o abandono das pequenas feiras e mercados de rua e isto está à vista de todos, é inegável.

Sem comentários:

Enviar um comentário